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CATAGUASES
REVISITADA
Onde eu nasci passa um rio.
Caetano Veloso
Ronaldo Cagiano
Atravesso a cidade
em nostálgico compasso
- liturgia da revisita -
percorrendo telhados e muros
e nesse itinerário saudoso
vejo resquícios de tempos
já não vivos, já não meus:
rude vingança da História.
Sob o limo e o mofo
impregnados em cada canto
e debaixo dos cabelos encanecidos
do ancião que cruza a rua,
há uma velada denúncia
de tantos desmoronamentos.
Vielas e cantões
de minha cidade natal
guardam segredos e mistérios
e vão dizendo experiências
de dor e delícia.
A igreja, o Paço, a ferrovia...
A escola, um funeral, o ribeirão...
A avenida, a estação, o comício...
As estátuas inertes, ensimesmadas...
Ah, ando à cata de quem sou (ou fui)
sobre paralelepípedos centenários
que, vagos, sonolentos e anacrônicos,
espiam-me
com a contundência de um veredito:
- tudo passou!
Entre um e outro cenário
(ou entre remorsos e ausências)
reconheço-me ou me perco.
A cidade e suas gentes,
com seu galardões e suas dúvidas,
com seus algozes e suas festas,
com seus holofotes ou intrigas,
com o inusitado e o costumeiro,
vão carpindo em nós
um espectro de tédio ou recompensa
Cataguases... Cataguases...
navegam nas águas do Rio Pomba
sonhos natimorfos
dos garimpeiros de antanho
e no leito estragado do Meia Pataca
(veia aberta de fel e detrito)
o seu presente escapa
sob as ações venais de seus coronéis.
Ronaldo Cagiano
"Canção dentro da noite"
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Ai,
Bendita, cheia de graças
Bendita sempre será vós, entre as Cachaças
Bendita é o gosto de tua seiva
Bendita de odor e paladar abençoados
Deliciais em nós com o teu sabor
Agora e sempre com tua alma forte
Amém.
Salorran
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INFÂNCIA
EM MINAS
Meu
deus é o cheiro do tempo
da cana
da manga
do traço cavado
no barro
e o berro
indolente
o chiado
cantado
do carro de boi
Madrugada fresca
claridade leve
Meus
deus é o cheiro do chão
da cana
cortada
da manga
caída
é o cheiro da infância
do medo do mundo
do sonho
do sono
o medo da vida
que espreita
vigia
e arma arapuca
prá gente cair
é o tempo perdido
perdeu misturou
rasgou apagou
confundiu
é
o cheiro da vida
que atrai
amedronta
que faz recuar
é
o cheiro do mato
dos seres fantásticos
que rondam na noite
prá nos enredar
da
cantiga cantada
tão cheia de ais
tão longe
arrastada
meu
deus é o cheiro
das Minas Gerais
Glória Barroso
Leopoldina
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